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Comentário Ao Peri Hermenias de Aristoteles., Traduções de Filosofia

O filosofo Santo Tomas de Aquino comenta o Livro da Interpretação de Aristoteles.

Tipologia: Traduções

2020
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Compartilhado em 23/03/2020

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COMENTÁRIO AO
PERI HERMENEIAS
DE ARISTÓTELES
São Tomás de Aquino
LIVRO PRIMEIRO
I. INTRODUÇÃO DE SANTO TOMÁS DE AQUINO
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COMENTÁRIO AO

PERI HERMENEIAS

DE ARISTÓTELES

São Tomás de Aquino

LIVRO PRIMEIRO

I. INTRODUÇÃO DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

1. As três operações do intelecto.

Conforme diz o Filósofo no IIº Livro do De Anima, as operações do intelecto são duas. A primeira operação do intelecto é chamada de inteligência dos indivisíveis. Por meio dela o intelecto apreende a essência de cada coisa em si mesma. A segunda é a operação do intelecto ao compor e dividir. A estas duas pode-se acrescentar ainda uma terceira divisão, que é a do raciocínio, segundo a qual a razão, partindo do que lhe é conhecido, investiga coisas que lhe são desconhecidas. A primeira destas operações, que é a inteligência dos indivisíveis, se ordena à segunda, que é a de compor e dividir. Isto ocorre porque não pode existir composição ou divisão a não ser da simples apreensão. A segunda operação, ademais, que é a composição e a divisão, se ordena à terceira, que é o raciocínio, porque só se pode alcançar a certeza das coisas que nos são desconhecidas partindo do que já nos é conhecido, [ponto este de partida a que, por já ser conhecido], o intelecto assente.

2. Posição do Tratado sobre a Interpretação dentro das

obras lógicas de Aristóteles.

Como a Lógica é dita Ciência Racional, é necessário que sua consideração trate de coisas que pertençam às três operações mencionadas da razão. É no Livro das Categorias que Aristóteles trata das coisas que pertencem à primeira operação do intelecto, isto é, das coisas que são concebidas por uma simples apreensão. No Livro da Interpretação o Filósofo trata das coisas que pertencem à segunda operação, isto é, das enunciações afirmativas e negativas. No Livro dos Primeiros Analíticos e no dos Segundos Analíticos, e nos que se lhes seguem, o Filósofo trata das coisas que pertencem à terceira operação do intelecto. Nestes livros ele trata do silogismo, em geral e das diversas espécies de silogismos e argumentações. Seguindo o modo como mostramos no item anterior que as diversas operações do intelecto se ordenam umas às outras, devemos também dizer que o Livro das Categorias, que trata da primeira operação do intelecto, se ordena ao Livro da Interpretação, que trata da segunda, o qual por sua vez se ordena ao Livro dos Primeiros e ao dos Segundos Analíticos e aos que se lhe seguem, que tratam da terceira operação do intelecto.

3. O que significa Interpretação.

Este livro que vamos comentar chama-se Da Interpretação. Segundo Boécio, chama-se interpretação: "uma voz significativa, que significa algo per se",

II. INTRODUÇÃO DE ARISTÓTELES

1. Aristóteles introduz sua obra sobre a interpretação.

O Filósofo inicia seu tratado sobre a interpretação dizendo que: "Em primeiro lugar é necessário estabelecer o que é o nome e o que é o verbo, depois o que são a negação e a afirmação, e também a enunciação e a oração". Toda a ciência, de fato, inicia-se considerando as coisas que dizem respeito aos seus princípios. Ora, os princípios das coisas compostas são as suas partes. Por isso é necessário ao que pretende tratar sobre a enunciação que considere primeiro sobre as suas partes, que é o que faz aqui Aristóteles.

2. Se a consideração do nome e do verbo não pertence mais

propriamente ao tratado Das Categorias.

Alguém poderia questionar que necessidade haveria de se considerar novamente sobre o nome e o verbo nesta obra sobre a interpretação se isto já havia sido feito por Aristóteles ao tratar das simples expressões no seu Livro das Categorias. Devemos responder que as simples expressões podem ser consideradas de três maneiras. De uma primeira maneira, na medida em que significam, de modo absoluto, as simples apreensões. Neste sentido, sua consideração pertence ao Livro das Categorias. De uma segunda maneira, as simples expressões podem ser consideradas segundo a razão, na medida em que são partes da enunciação, e é desta maneira que são consideradas na presente obra. De uma terceira maneira, as simples expressões podem ser consideradas na medida em que através delas é constituída a ordem silogística, e é deste modo que serão consideradas, sob a razão dos termos, no Livro dos Primeiros Analíticos.

3. Aristóteles apenas considerará como partes da oração o

nome e o verbo.

Pode-se questionar também por qual motivo Aristóteles considera de todas as partes da oração, apenas o nome e o verbo. A isto podemos responder que, como o Filósofo pretende tratar da simples enunciação, ser-lhe-á suficiente considerar apenas aquelas partes da enunciação das quais a simples oração necessariamente consta. Pode-se dizer também que só os nomes e os verbos são partes principais da oração. Neste sentido, sob os nomes compreendem-se também os pronomes, os quais, ainda que não designam a natureza, determinam todavia a pessoa, e por isso são colocados no lugar do nome. Ainda neste sentido, sob os verbos compreendem-se também os particípios, que embora tenham conveniência para com os nomes, todavia consignificam tempo. Tudo o restante são mais propriamente ligações das partes da oração, significando relações de uma parte para com outra, do que partes da oração.

4. O que são a negação e a afirmação, a enunciação e a

oração.

Em sua introdução, depois do nome e do verbo, Aristóteles menciona a negação e a afirmação, a enunciação e a oração. A negação e a afirmação são partes da enunciação. Não, todavia, partes integrais da enunciação, como são o nome e o verbo, mas partes subjetivas, isto é, espécies da enunciação, o que será manifestado mais adiante. A enunciação é um gênero da negação e da afirmação, que compreende em si tanto a negação como a afirmação. Quanto à oração, esta é, por sua vez, um gênero da enunciação, que compreende em si a enunciação e outras espécies da oração.

2. Principal objeto da Lógica.

A Lógica se ordena ao conhecimento que procede das coisas ou da realidade. Por este motivo a sua principal consideração é a significação das vozes, pois esta é imediata às próprias concepções do intelecto. A significação das letras, como algo mais remoto, não pertence à consideração da Lógica, mas mais à consideração da Gramática. É por isso que Aristóteles, expondo a ordem das significações, não principia com as letras, mas com as vozes, já tendo dito que: "Em primeiro lugar é necessário estabelecer o que é o nome e o verbo, a negação e a afirmação, e também a enunciação e a oração". Todas estas coisas são, efetivamente, o que chamamos de vozes significativas. E agora, continuando seu discurso, acrescenta: "As coisas, portanto, que estão nas vozes, são sinais das paixões que estão na alma".

3. O que significa a expressão do Filósofo "as coisas que

estão nas vozes".

O nome, o verbo e o demais que se lhes segue possuem um tríplice modo de ser. De um primeiro modo, segundo que estejam na concepção da inteligência. De um segundo modo, segundo que estejam na enunciação da voz. De um terceiro modo, segundo que estejam na escrita das letras. Quando o Filósofo diz: "As coisas que estão nas vozes são sinais das paixões que estão na alma", a expressão "as coisas que estão nas vozes" designa os nomes, os verbos, e as demais coisas que se seguem a estes. O nome e o verbo são coisas que estão nas vozes porque a voz é algo natural; os nomes, porém, e os verbos significam por convenção humana. Esta convenção é acrescentada à realidade natural da voz como a forma é acrescentada à matéria, tal como a forma da cama é acrescentada à matéria da madeira. Quando o Filósofo, portanto, para designar o nome, o verbo e o restante que se lhes segue se utiliza da expressão "as coisas que estão nas vozes" faz o mesmo como se, falando de uma cama, a ela se referisse como "das coisas que estão na madeira".

4. O que são as paixões da alma de que os nomes e os

verbos são sinais.

O Filósofo afirma que: "as coisas que estão nas vozes, isto é, os nomes, os verbos e outros consequentes, são sinais das paixões que estão na alma". Chamam-se comumente de paixões da alma os movimentos dos apetites sensíveis, como a ira, a alegria e outros tais, conforme é explicado pelo Filósofo no Segundo Livro da Ética. Mas no De Interpretatione o Filósofo trata sobre as vozes significativas por uma convenção humana. Devemos, portanto, entender aqui por paixão da alma não o movimento dos apetites sensíveis, mas as concepções da inteligência.

5. Os nomes, os verbos e as orações significam

imediatamente as concepções da inteligência, e só

mediatamente a própria realidade.

Depreende-se, ademais, da sentença do Filósofo, que os nomes, os verbos e as orações significam imediatamente as concepções da inteligência e não as próprias coisas ou realidade, o que é manifesto pelo próprio modo de significar: o nome homem, de fato, significa a natureza humana por abstração das coisas singulares. Não pode ser, portanto, que signifique imediatamente o próprio homem singular, tanto que os filósofos platônicos colocaram que significaria a própria ideia de homem. Esta ideia, porém, em sua abstração, não subsiste de modo real, mas apenas na inteligência. Por isso foi necessário que Aristóteles tivesse dito que as vozes significam de modo imediato as concepções da inteligência; significam também a realidade, mas apenas mediante estas concepções.

6. As vozes e a escrita não significam por modo de

natureza, mas por instituição humana.

Assim como as coisas que estão nas vozes são sinais das paixões da alma, assim também as letras são sinais das vozes. Os nomes e os verbos, que estão nas vozes, são sinais das coisas que estão na alma, e os nomes e os verbos que são escritos são sinais dos nomes e dos verbos que estão nas vozes. As vozes, porém, assim como as letras, não possuem significado natural. As coisas que significam naturalmente são as mesmas junto a todos; a significação, porém, das vozes, das quais agora tratamos, não é a mesma junto a todos. De onde fica manifesto que assim como as letras, assim também nem as vozes possuem significação natural, mas esta lhes advém por instituição humana. As vozes que possuem significação natural, como os gritos dos enfermos e outras semelhantes, são as mesmas junto a todos.

9. A verdade e a falsidade na significação das vozes.

Algumas vozes significam o verdadeiro e o falso, outras não. As concepções da inteligência são anteriores, pela ordem da natureza, às vozes, pois as vozes são proferidas para expressarem as concepções da inteligência. Ora, deve-se considerar que, conforme se explica no IIIº Livro do De Anima, duas são as operações da inteligência, em uma das quais não se encontra e em outra das quais se encontra o verdadeiro e o falso. Como as vozes significativas são formadas para expressar as concepções da inteligência, por isso, para que o sinal se conforme ao assinalado, é necessário que também, entre as vozes significativas, algumas signifiquem sem o verdadeiro e o falso, e outras com o verdadeiro e o falso. A primeira das duas operações da inteligência é a inteligência dos indivisíveis, que se dá com quando a inteligência intelige absolutamente a qüididade ou a essência de cada coisa por si mesma, como por exemplo, o que é o homem, o que é o branco ou o que é alguma outra coisa como estas. A segunda das operações da inteligência é a que se dá quando a inteligência compõe e divide simultaneamente estes conceitos simples. A verdade e a falsidade dizem respeito à composição e à divisão. O Filósofo diz que é nesta segunda operação da inteligência, isto é, da inteligência componente e dividente, que se encontra a verdade e a falsidade, dando com isto a entender que não se encontra na primeira, o que é dito explicitamente no IIIº do De Anima. A composição ocorre quando a inteligência compara um conceito a outro, como que apreendendo a conjunção ou a identidade das coisas às quais se referem as concepções. A divisão ocorre quando a inteligência compara de tal modo um conceito a outro que apreende as coisas serem diversas. Por este motivo é que nas vozes a afirmação é dita composição, na medida em que significa a conjunção por parte da coisa; e a negação é dita divisão, na medida em que significa a separação das coisas.

10. Levantam-se quatro objeções contra a não

existência da verdade e falsidade na inteligência dos

indivisíveis.

O Filósofo diz que a verdade e a falsidade existem apenas na composição e na divisão, e não na inteligência dos indivisíveis. Contra esta colocação podem levantar-se as seguintes objeções. Primeiro também as coisas são ditas verdadeiras ou falsas, como quando se diz que o ouro é verdadeiro ou falso. Segundo, o ser e o verdadeiro se convertem, de onde que mesmo uma simples concepção do intelecto, [como é o caso do ser], que é semelhança da coisa, não carece de verdade e falsidade. Terceiro, diz o Filósofo no IIº Livro do De Anima que o sentido dos sensíveis próprios é sempre verdadeiro. Ora, o sentido não compõe nem divide. Portanto, não é correto dizer que apenas na composição e na divisão pode encontrar-se verdade e falsidade. Finalmente, na inteligência divina não existe nenhuma composição ou divisão, conforme demonstrado no XIIº Livro da Metafísica. Todavia, ali está a primeira e a suma verdade. Portanto, a verdade não pode dizer respeito apenas à composição e à divisão.

11. Resposta às quatro objeções. I.

Para a evidência deste assunto, deve-se considerar que a verdade pode encontrar-se em algo de dois modos: A. Primeiro, como naquilo que é verdadeiro. B. Segundo, como no que diz ou conhece o verdadeiro. Naquilo que é verdadeiro a verdade existe tanto nas coisas simples como nas compostas; mas naquilo que diz ou conhece o verdadeiro a verdade só existe segundo a composição e a divisão. [Estas afirmações] podem sem manifestadas conforme será feito a seguir.

Terceiro Livro do De Anima. Deve-se considerar, porém, que embora o sentido do objeto próprio seja verdadeiro, todavia não o conhece ser verdadeiro. Não pode. efetivamente, conhecer a relação de sua conformidade à coisa, mas apreende apenas a coisa. A inteligência, porém, pode conhecer a relação desta conformidade e, por isso, somente a inteligência pode conhecer a verdade. De onde que o Filósofo diz, no Sexto Livro da Metafísica, que a verdade está apenas na mente, assim como a verdade no cognoscente. Conhecer a mencionada relação de conformidade nada mais é, porém, do que julgar assim ser ou não ser na coisa, o que é compor e dividir. Por isso a inteligência não conhece a verdade senão compondo ou dividindo pelo seu julgamento. De onde que é evidente que a verdade e a falsidade, na medida em que está no cognoscente e no afirmante não é acerca da composição e da divisão, e é deste modo que o Filósofo fala no presente livro. Deve-se saber, ademais, que o Filósofo fala aqui da verdade segundo que pertence à inteligência humana, a qual julga sobre a conformidade entre as coisas e a inteligência compondo e dividindo. O julgamento destas coisas, porém, segundo a inteligência divina, é sem composição e divisão, porque assim como o nosso intelecto intelige as coisas materiais imaterialmente, assim também o intelecto divino conhece a composição e a divisão de modo simples.

IV. O NOME

1. Introdução.

Aristóteles pretende tratar principalmente da enunciação, que é o objeto deste livro. Em qualquer ciência, porém, é necessário conhecer primeiro os princípios de seu objeto. Por isso o Filósofo passa a determinar agora os princípios como que materiais da enunciação, que são as suas partes integrais, isto é, o nome e o verbo. O nome significa a substância da coisa; o verbo significa a ação ou paixão procedente da coisa. Após tratar sobre o nome e o verbo, o Filósofo determinará o princípio formal da enunciação, que é a oração, a qual é gênero da enunciação.

2. Consideração sobre as definições.

A definição é também chamada de término, porque inclui totalmente a coisa [definida]. Assim, nada da coisa definida está fora da definição, de tal modo que a definição não lhe convenha; nada também está dentro da definição além da coisa [definida], de modo que a definição lhe conviesse.

3. A definição do nome, dada por Aristóteles.

No De Interpretatione Aristóteles diz que: "o nome é uma voz significativa segundo o agrado, sem tempo, da qual nenhuma parte, quando separada, é significativa".

6. Solução à primeira objeção.

As coisas artificiais estão no gênero da substância por parte da matéria, e no gênero dos acidentes por parte da forma, pois as formas das coisas artificiais são acidentais. [Isto ocorre porque a forma substancial é aquela que constitui por primeiro o ser da coisa; as formas que se acrescentam a algo já constituído na realidade não podem ser formas substanciais, mas formas acidentais. Assim, a forma pela qual um ente é madeira é forma substancial, mas a forma pela qual esta madeira se torna mesa já não é substancial, mas acidental, porque advém a um ente já existente. As formas das coisas artificiais, portanto, na medida em que são artificiais, são formas acidentais; só as formas das coisas naturais são formas substanciais. porque é por elas que estes entes entram na realidade por primeiro]. [Ora, os nomes das coisas artificiais podem significá-las de duas maneiras. Eles podem significar as formas acidentais como concretas num sujeito, como quando dizemos "Simum" , palavra latina que significa nariz curvo'; ou podem significar as formas acidentais como abstratas, como quando dizemos _"Simidade"_ , que significa a curvidade do nariz]. Quando os nomes significam os acidentes em abstrato, em suas definições colocamos o acidente diretamente, como gênero, e o sujeito indiretamente, como diferença. Assim é que dizemos que a simidade é a curvidade do nariz. Quando os nomes significam os acidentes em concreto, em sua definição a matéria ou o sujeito é colocada como gênero e o acidente como diferença. Assim é que dizemos quesimum' é o nariz curvo. Ora, os nomes, considerados em si mesmo, são formas acidentais tomadas como concretas em sujeitos naturais, [como são as vozes]. Em sua definição, portanto, é mais conveniente que as coisas naturais sejam colocadas como gênero [e a forma acidental como diferença]. Assim é que dizemos que o prato é uma madeira modelada, e que o nome é uma voz significativa. O contrário sucederia se o termo nome fosse tomado como significando sua própria forma artificial em abstrato, [como se estivesse definindo mais a nomidade do que o nome]. [Neste caso deveríamos dizer que a nomidade seria a significatividade da voz].

7. Segunda objeção à definição do nome dada por

Aristóteles.

Aristóteles, para definir o nome e diferenciá-lo do verbo, diz que é: "uma voz significativa sem tempo". No entanto, há nomes que significam tempo, como o nome dia ou o nome ano. [De onde que a definição do Filósofo não parece corretamente colocada].

8. Solução à segunda objeção.

Podemos considerar três coisas a respeito do tempo. Podemos considerar, em primeiro lugar, o próprio tempo, na medida em que este é alguma coisa. Entendido deste modo, o tempo pode ser significado pelo nome, assim como qualquer outra coisa. Em segundo lugar, podemos considerar o que é medido pelo tempo, enquanto tempo. O que é medido, porém, por primeiro e de modo principal pelo tempo é o movimento. Ora, as ações e as paixões, significadas pelos verbos, consistem no próprio movimento. [Segundo afirma o Filósofo no IIº da Física, a ação e a paixão são o próprio movimento, considerado de dois modos distintos; a ação é o movimento na medida em que ele provém do agente e a paixão é o movimento, na medida em que está situado no paciente. Ação e paixão, entendidas deste modo, não são dois movimentos diferentes, mas um único e mesmo movimento considerado de dois modos distintos]. [Se ação e paixão, portanto, são o próprio movimento, e] ação e paixão são o que é significado pelo verbo, deduz- se que o verbo é algo que significa com o tempo, [pois onde há movimento há necessariamente tempo, pois o tempo, segundo Aristóteles, não é algo absoluto que flui por si mesmo, independentemente do mundo natural, mas apenas a própria medida do movimento]. [Os nomes não significam ações e paixões enquanto tais; não significam, portanto, o movimento enquanto tal e, não significando aquilo ao qual o tempo é anexo, não significam com o tempo]. [Somente o movimento é medido pelo tempo; as ações e paixões, na medida em que são o próprio movimento, são medidas pelo tempo e, deste modo, o verbo que as significa é algo que significa com o tempo]. A substância, considerada em si mesmo, na medida em que é significada pelo nome e pelo pronome, não tem, enquanto tal, como ser medida pelo tempo. [Sob um certo aspecto, porém, a substância pode ser medida pelo tempo]; isto ocorre na medida em que ela se submete ao movimento e, entendida deste modo, pode ser significada pelo particípio, [como quando dizemos nascido, nascente ou nascituro]. Por este motivo, além do verbo, também o particípio significa com o tempo. Não, porém, o nome e o pronome. Finalmente, em terceiro lugar, podemos considerar a própria relação do tempo que mede. Esta relação é significada pelo advérbio de tempo, como o são as palavras amanhã, ontem e outras semelhantes.

V. O VERBO

1. Introdução.

Depois do Filósofo ter determinado sobre o nome, agora determina sobre o verbo. Em primeiro lugar define o verbo e, a este respeito, deve-se considerar que Aristóteles, buscando a brevidade, não colocou na definição do verbo as coisas comuns ao nome e ao verbo, confiando-as à inteligência do leitor a partir do que havia dito na definição do nome.

2. Definição do verbo, segundo Aristóteles.

Segundo o Filósofo, no terceiro capítulo do De Interpretatione, "Verbo é o que consignifica tempo, do qual nenhuma parte, quando separada, é significativa, e é sempre nota de coisas que são predicadas de outro".

3. Primeiro comentário à definição de Aristóteles.

Há na definição do verbo dada pelo Filósofo três partes. Pela primeira o Filósofo distingue o verbo do nome, quando diz que o verbo consignifica tempo. Na definição do nome, efetivamente, Aristóteles havia dito que o nome, [ao contrário do verbo], significa sem tempo. Pela segunda parte de sua definição, Aristóteles distingue o verbo da oração quando diz, repetindo o que havia dito na definição do nome, que nenhuma parte [do verbo], quando separada, é significativa. Pela terceira parte da definição do verbo Aristóteles distingue o verbo não apenas do nome, mas também do particípio. O particípio, de fato, assim como o verbo, significa com o tempo. Para distinguilo do verbo, o filósofo diz que o verbo "sempre é nota" , isto é, sempre é sinal, "de coisas que são predicadas de outro". O particípio, de fato, pode ser colocado tanto da parte do sujeito como do predicado, mas o verbo sempre se coloca da parte do predicado.

4. Objeção à segunda parte da definição do verbo.

Buscando a brevidade, Aristóteles não colocou em sua definição do verbo o que era comum ao verbo e ao nome, deixando-as ao entendimento do leitor que já houvesse estudado sua exposição sobre o nome. [É assim que ele omite, na definição do verbo, que o verbo é, tal como o nome, "uma voz significativa, segundo o agrado" ]. No entanto, o Filósofo repete que [assim como o nome], o verbo é algo "do qual nenhuma parte, quando separada, é significativa". Parece que, portanto, assim como o ser voz significativa foi omitido da definição do verbo, também o não possuir partes que quando separadas sejam significativas deveria ter sido omitido desta mesma definição.

5. Defesa da conveniência da segunda parte da definição

do verbo.

Pode-se responder [à objeção levantada] que o verbo, [ao contrário do nome], implica composição, no qual se torna realidade perfeita a oração que significa o verdadeiro ou o falso. Por isso o verbo parece possuir uma conveniência maior do que o nome para com a oração. O verbo é, efetivamente, como que uma certa parte formal da oração, enquanto que o nome seria uma de suas partes materiais. Por isto o Filósofo teria repetido a parte da definição, pela qual o verbo se distingue da oração.

6. Objeção à conveniência da terceira parte da definição do

verbo.

[Na terceira parte de sua definição do verbo, o Filósofo diz que o verbo é sempre sinal de coisas que são predicadas de outro, para distingui-lo dos particípios, que consignificam tempo mas podem não apenas ser predicados, como também sujeitos]. No entanto, não parece ser este o caso dos verbos no modo infinitivo, que às vezes são colocados no lugar do sujeito, como quando se diz: caminhar é mover- se'. E também os verbos de outros modos podem às vezes ser colocados no sujeito, como quando se diz:Corro é um verbo'.

7. Defesa da conveniência da terceira parte da definição do

verbo.

[Deve-se responder à objeção anterior] dizendo que os verbos no modo infinitivo, quando são colocados no sujeito, possuem força de nomes. Tanto é assim que na língua grega e até mesmo na linguagem do latim vulgar costumam receber a adição de artigos tal como se fossem nomes. [Dir- se-ia, neste caso, que “O correr é mover-se”]. Quanto ao segundo exemplo apresentado, na expressão “Corro é um verbo”, a palavra “corro” não é tomada formalmente, segundo que sua significação se referiria à coisa, mas segundo que significa materialmente a própria voz, a qual é tomada como coisa.